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Medicina da Pessoa
     
 
Barbara Durão
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Medicina da Pessoa
“Tão importante quanto conhecer a doença que o homem tem,
é conhecer o homem que tem a doença”.
William Osler

Na prática clínica, com freqüência, o motivo explícito que leva o cliente à consulta nem sempre é o motivo real ou, pelo menos,
o mais importante. É necessário estar atento para decodificar e, no momento oportuno, responder aos motivos implícitos.
Esta capacidade é um fator importante no bom atendimento. Há clientes que chegam à consulta com queixas vagas e imprecisas.
São “umas dores”, “cansaço permanente”, “mal-estar geral”, “desânimo”, “pressão no peito”. E por meio dessas queixas imprecisas,
expressam as dores da vida. Nesses casos, muitas vezes, os sintomas falam. E para entender essa linguagem dos sintomas é preciso
entender a história da doença na história da pessoa e no contexto em que ela vive.

A formação de um bom médico se assenta no clássico tripé: conhecimentos, habilidades e atitudes. O conhecimento se organiza a
partir de informações. A habilidade depende do treinamento. E a atitude está diretamente relacionada à formação e identidade
psicológicas. Nas palavras de Mello Filho (1986, p. 84), o resultado da prática médica é, de forma sintética, função de nossa
capacitação técnica e da possibilidade de fazermos um bom relacionamento com nosso paciente.

Abram Eksterman compreende a Psicologia Médica, diante do fato clínico, através da “Teoria do Observador”. Em seu entendimento,
o fato clínico é, ao mesmo tempo, o objeto da observação médica e objeto de ação médica. Para ser submetido à ação médica,
o fato clínico deve ser apreciado não apenas como objeto isolado, mas como objeto em interação com o próprio médico.
Ainda, o conceito de “pessoa” só existe na interação humana. A natureza não fabrica pessoas. A pessoa é uma concepção de cultura
e produto do homem na sua relação com o outro. Assim, ao se suprimir o conhecimento da relação com o doente,
suprime-se a “pessoa” da prática médica (Perestrello, 1989). É preciso considerar que as mãos e as palavras possuem também
potencial como instrumentos terapêuticos (Balint, 1988).

Hipócrates é considerado o pai da Medicina não apenas porque aplicou a ela as especulações dos filósofos, mas também e
principalmente porque as combinava com observações feitas à beira da cama do doente, a quem escutava com atenção.
Segundo o médico inglês Richard Gordon, uma de suas maiores contribuições foi mostrar que a aplicação prática da medicina
clínica resulta apenas da observação inteligente: “Como o que importa é o homem doente, não as teorias sobre a doença,
a atenção deve estar voltada para o paciente, bem como para o ambiente que o cerca” (Ismael, J. C., 2002, p. 27).

Há necessidade de se refletir a respeito de tantas especializações e sofisticações da Medicina como ciência e sua real utilização
frente às necessidades sociais e humanas da população. Neste novo século, as desigualdades sociais apresentam-se cada vez mais
perversas, e as comunidades necessitam de médicos comprometidos com a realidade social, econômica, cultural e humana de sua
clientela, pois esta adoece inserida em seu contexto social, em meio a sua situação econômica e cultural, trazendo juntamente
à sua doença características pessoais: o doente é o Ser-no-mundo” (Branco, 2002).

Dessa forma, a doença entende-se como um “adoecer”: um processo histórico-biológico desenvolvido em circunstâncias adversas.
Assim, diagnosticar uma doença é mais que identificar um estado mórbido; é, sobretudo, detectar um modo particular de existir,
um existir doente (Perestrello, 1989). Segundo Bougnoux, citado por Belmont (2002), os médicos precisam se preocupar menos
em ser sábios e “curadores” de doenças, e perseguir, cada vez mais, o modelo Winnicottiano do médico “cuidador”: profissional que
toma seu paciente por inteiro, dando-lhe um atendimento holístico, e não só se comprometendo com a cura de sua doença,
mas capaz de exercer seus saberes integrados à realidade do Outro. No dizer de Balint (1988), a pessoa do médico pode ser um
medicamento poderoso e eficaz. Necessário se torna, pois, que o profissional saiba receitar-se adequadamente.

Conclui-se que a medicina do doente não exclui a medicina da doença, mas sim, a amplia no sentido de um atendimento holístico.
Entende-se que a consulta é a base da relação terapêutica. Ela permite, através da comunicação, a realização do ato terapêutico,
pelo qual o profissional ouve as queixas do cliente, toma sua história pessoal, analisa os sintomas, pesquisa os sinais, faz o
diagnóstico e estabelece a conduta. Logo, o êxito do ato terapêutico depende, na prática, da comunicação estabelecida
durante a consulta.

Barbara Macedo Durão Nisenbaum

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